A agricultura portuguesa tem registado uma transformação significativa ao longo das últimas décadas. Apesar de empregar menos trabalhadores do que no passado, o setor conseguiu aumentar de forma expressiva a sua capacidade produtiva, refletindo um processo contínuo de modernização, mecanização e profissionalização das explorações agrícolas.
De acordo com um estudo recentemente divulgado pela Consulai, especializado na análise do setor agroalimentar, a produtividade agrícola em Portugal mais do que duplicou nos últimos 30 anos, evidenciando a evolução estrutural que tem vindo a ocorrer no setor.
Menos trabalhadores, mais valor gerado
Uma das principais conclusões do estudo é a redução significativa do número de trabalhadores agrícolas ao longo das últimas décadas.
Enquanto anteriormente o setor empregava cerca de 430 mil pessoas, em 2023 esse número situava-se nos 211,5 mil trabalhadores. Apesar desta redução, o valor gerado pela atividade agrícola aumentou de forma considerável.
Segundo os dados apresentados, a agricultura contribuiu com 3.362 milhões de euros para o Valor Bruto Acrescentado (VAB) nacional em 2023. Este crescimento da produtividade agrícola foi impulsionado por fatores como a mecanização das operações, a adoção de novas tecnologias, a modernização das explorações e uma maior organização empresarial.
Esta evolução permitiu produzir mais valor com menos recursos humanos, tornando o setor mais eficiente e competitivo.
Modernização impulsiona a produtividade agrícola
A melhoria da produtividade agrícola está diretamente associada ao investimento realizado pelas explorações agrícolas ao longo dos últimos anos.
A introdução de maquinaria mais avançada, sistemas de rega eficientes, agricultura de precisão e ferramentas digitais tem permitido otimizar recursos e melhorar o desempenho das explorações.
Ao mesmo tempo, a profissionalização da gestão agrícola contribuiu para uma utilização mais eficiente dos fatores de produção, permitindo responder aos desafios de um mercado cada vez mais competitivo.
Este processo de transformação tem aproximado a agricultura portuguesa das melhores práticas internacionais e reforçado a sua capacidade de adaptação às exigências dos consumidores e dos mercados.
Mão de obra estrangeira assume papel essencial
O estudo destaca também a crescente importância da mão de obra estrangeira para o funcionamento da agricultura nacional.
Em 2023, mais de 40% dos trabalhadores do setor eram estrangeiros, um valor que quadruplicou desde 2014 e que não encontra paralelo noutros setores da economia portuguesa.
Esta realidade é particularmente relevante para culturas intensivas e sazonais, onde a necessidade de mão de obra é mais elevada durante determinados períodos do ano.
Sem esta força de trabalho, muitas explorações agrícolas enfrentariam dificuldades em assegurar os níveis de produção atualmente alcançados.
Trabalhadores estrangeiros apresentam maior qualificação
Um dos aspetos mais interessantes identificados pelo estudo está relacionado com o perfil académico dos trabalhadores.
Os dados mostram que os trabalhadores estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos dos trabalhadores portugueses que exercem funções no setor agrícola.
Enquanto 7,5% dos trabalhadores estrangeiros possuem formação superior, apenas 2,7% dos trabalhadores portugueses apresentam o mesmo nível académico.
Por outro lado, cerca de 81,5% dos trabalhadores nacionais na agricultura possuem apenas o ensino básico, evidenciando um desafio importante ao nível da qualificação dos recursos humanos.
Envelhecimento continua a preocupar o setor
Apesar dos avanços registados na produtividade agrícola, a renovação geracional continua a ser um dos maiores desafios da agricultura portuguesa.
A idade média dos trabalhadores agrícolas aumentou significativamente nas últimas décadas, passando de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023.
Este envelhecimento resulta, em parte, da dificuldade em atrair jovens para a atividade agrícola, situação que está associada a fatores como a exigência física do trabalho, a perceção social da profissão e os níveis salariais praticados.
Embora a remuneração média do setor tenha crescido cerca de 50% na última década, aproximando-se dos mil euros mensais, continua abaixo da média nacional.
O futuro da agricultura depende da inovação e das pessoas
A evolução registada nas últimas décadas demonstra que a agricultura portuguesa tem capacidade para aumentar a produtividade agrícola e reforçar a sua competitividade.
No entanto, os desafios relacionados com a escassez de mão de obra, o envelhecimento da população agrícola e a necessidade de atrair profissionais qualificados continuam a exigir respostas estruturadas.
O investimento em tecnologia, formação, qualificação profissional e políticas que incentivem a renovação geracional será determinante para garantir a sustentabilidade do setor nos próximos anos.
A capacidade de combinar inovação tecnológica com valorização do capital humano poderá definir o futuro da agricultura portuguesa e assegurar a continuidade da trajetória de crescimento registada nas últimas décadas.
Fonte: Sapo