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Economia Circular na Agricultura: transformar resíduos em oportunidades

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Economia Circular na Agricultura: transformar resíduos em oportunidades

economia circular na agricultura

A economia circular na agricultura está a ganhar cada vez mais importância no setor agroalimentar português. O aproveitamento de subprodutos agrícolas, a redução do desperdício, a regeneração dos solos e a valorização da biomassa estão entre as soluções que podem tornar a atividade mais sustentável, eficiente e preparada para os desafios das próximas décadas.

Mais do que uma questão ambiental, a economia circular representa também uma oportunidade económica. Aquilo que anteriormente era encarado como um resíduo ou um custo de eliminação pode ser transformado numa matéria-prima para novos produtos, contribuindo para criar valor dentro das próprias cadeias agroalimentares.

Esta mudança de paradigma foi destacada por Manuela Pintado, diretora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Universidade Católica Portuguesa, que defende que a sustentabilidade deixou de ser uma opção para passar a ser uma necessidade estratégica para a agricultura e para a indústria alimentar.

O que significa economia circular na agricultura?

A economia circular é um modelo que procura reduzir o desperdício e manter os recursos em utilização durante o maior período possível. Ao contrário do modelo linear, baseado em extrair, produzir, consumir e descartar, procura reduzir, reutilizar, recuperar e valorizar materiais e recursos.

Na agricultura, este princípio pode assumir diferentes formas. Os resíduos resultantes das atividades agrícolas podem ser aproveitados para produzir fertilizantes, novos ingredientes alimentares, biopesticidas ou outros compostos com aplicação em diferentes setores.

Como explica Manuela Pintado, “aquilo que antes era um custo para as empresas pode hoje transformar-se numa oportunidade de criação de valor”. A ideia passa, portanto, por deixar de olhar para os resíduos apenas como algo que precisa de ser eliminado e começar a encará-los como recursos que podem voltar a entrar no ciclo produtivo.

A reciclagem é apenas uma parte deste processo. A prevenção do desperdício, a utilização eficiente dos recursos e a valorização dos subprodutos devem acontecer antes de se chegar à fase de reciclagem.

Da agricultura regenerativa à valorização dos resíduos

A economia circular na agricultura está também diretamente relacionada com a agricultura regenerativa. Não basta reduzir os impactos ambientais da atividade: é necessário recuperar e preservar os recursos naturais que sustentam a produção agrícola.

A melhoria da fertilidade dos solos, a recuperação de nutrientes, o aumento da biodiversidade, a utilização de bioinóculos e a promoção de rotações de culturas são algumas das práticas apontadas neste contexto.

O objetivo passa por produzir de forma mais sustentável sem comprometer a produtividade e garantindo que os recursos permanecem disponíveis para as gerações futuras.

Esta abordagem pode ser particularmente relevante num contexto de maior pressão sobre os solos, a água e outras matérias-primas necessárias à produção alimentar.

Resíduos agrícolas podem transformar-se em novos produtos

A investigação científica já está a encontrar aplicações concretas para diferentes tipos de resíduos agrícolas. No trabalho desenvolvido pelo Centro de Biotecnologia e Química Fina são estudadas, entre outras, biomassas provenientes das podas da oliveira, do engaço da uva e da rama do tomateiro.

A partir destes materiais é possível extrair compostos naturais, como a lignina, que apresentam resultados promissores na proteção de determinadas culturas, nomeadamente no combate a nemátodos.

Existem também projetos destinados à produção de compostos orgânicos estabilizados a partir de perdas agrícolas, permitindo devolver nutrientes ao solo de forma controlada.

É uma lógica de valorização que aproxima o início e o fim do ciclo produtivo: os recursos provenientes do solo podem voltar ao solo, reduzindo desperdícios e contribuindo para uma utilização mais eficiente da biomassa.

No entanto, para que estas soluções possam ser implementadas em maior escala, não basta existir matéria-prima. É necessário criar sistemas eficientes de recolha, transporte e armazenamento, assegurar a qualidade dos materiais e garantir uma regularidade de fornecimento que permita justificar novos investimentos.

Portugal pode reduzir a dependência externa

A transição para modelos mais circulares pode também contribuir para reforçar a autonomia e a resiliência do setor agroalimentar português.

Portugal dificilmente será totalmente autos suficiente, mas existem condições para reduzir a dependência externa em determinadas cadeias e diminuir a vulnerabilidade perante alterações nos mercados internacionais ou interrupções nas cadeias de abastecimento.

A valorização de culturas adaptadas às condições nacionais e o desenvolvimento de alternativas para matérias-primas atualmente importadas podem contribuir para esse objetivo.

Neste sentido, uma agricultura mais sustentável e regenerativa poderá também ser uma agricultura mais resiliente e menos dependente de recursos externos.

A ciência tem um papel essencial

A investigação e a transferência de conhecimento são fundamentais para acelerar esta transformação. O trabalho das universidades e dos centros de investigação permite desenvolver novas soluções, mas estas precisam depois de chegar às empresas e aos produtores.

Manuela Pintado destaca precisamente a missão da universidade na produção de conhecimento científico, na formação de profissionais e na criação de soluções com impacto na sociedade e na economia.

Essa transferência exige uma maior aproximação entre universidades, produtores, empresas, associações e entidades públicas. Cada interveniente dispõe de conhecimento e recursos diferentes, pelo que a colaboração ao longo da cadeia de valor é essencial para transformar investigação em aplicações concretas.

Regulamentação e financiamento continuam a ser desafios

Apesar da evolução tecnológica, existem ainda obstáculos à implementação de soluções de economia circular. Um dos principais está relacionado com os processos de regulamentação e certificação.

A investigação pode desenvolver um novo produto ou ingrediente num período relativamente curto, mas a sua aprovação para entrada no mercado pode demorar vários anos. Para Manuela Pintado, este desfasamento entre o ritmo da inovação científica e o dos processos regulatórios deve ser reduzido, sem comprometer o rigor e a segurança.

O financiamento é outro dos fatores determinantes. Existem atualmente programas nacionais e europeus que apoiam diferentes fases do processo, desde a investigação até à industrialização. O desafio passa por garantir que estas oportunidades permitem efetivamente transformar conhecimento científico em soluções comercializáveis.

A importância da cooperação entre empresas

A transição para uma economia circular não depende apenas da capacidade individual de cada empresa. É necessária uma maior cooperação entre os diferentes intervenientes das cadeias de valor.

É neste contexto que surge a Smart Waste Portugal, associação sem fins lucrativos criada em 2015 com o objetivo de promover a economia circular em diferentes setores. A organização reúne mais de 150 associados provenientes de áreas como a indústria, gestão de resíduos, distribuição, consultoria, universidades e municípios.

A associação procura criar ligações entre organizações, promover boas práticas e facilitar a transferência de conhecimento. Um dos exemplos é a plataforma My Waste, criada para aproximar empresas que têm resíduos ou subprodutos disponíveis de outras entidades que os podem valorizar.

Desta forma, materiais que poderiam acabar num aterro podem encontrar uma nova utilização como matéria-prima noutro processo produtivo.

O consumidor também faz parte da mudança

A transformação do sistema agroalimentar não depende apenas dos produtores e das empresas. Os consumidores têm igualmente um papel importante, sobretudo na redução do desperdício alimentar e na valorização de produtos desenvolvidos através de processos mais sustentáveis.

A literacia dos consumidores é, por isso, fundamental. É necessário compreender que a utilização de um subproduto agrícola na criação de um novo produto não significa menor qualidade ou segurança. Pelo contrário, representa uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.

A valorização da produção nacional pode também contribuir para esta mudança, ao apoiar a economia local e reforçar a resiliência das cadeias alimentares.

O futuro da agricultura passa por produzir melhor

Com uma população mundial em crescimento e recursos naturais cada vez mais limitados, aumentar simplesmente a produção agrícola não será suficiente. Será necessário produzir melhor, reduzir perdas e utilizar os recursos disponíveis de forma mais eficiente.

A economia circular na agricultura pode desempenhar um papel importante nesta transformação, ao permitir aproveitar subprodutos, reduzir desperdícios, regenerar os solos e criar novas oportunidades de negócio.

A agricultura regenerativa, a valorização da biomassa e o desenvolvimento de novas soluções tecnológicas mostram que sustentabilidade e competitividade podem caminhar lado a lado.

O futuro do setor agroalimentar dependerá, em grande medida, da capacidade de transformar aquilo que hoje é considerado desperdício em recurso e conhecimento em soluções concretas. Como defende Manuela Pintado, a economia circular deixou de ser apenas uma estratégia ambiental: é uma necessidade económica, social e agrícola.

Fonte: Revista Voz do Campo, nº 306 – AGO-SET’26

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