Há uma pergunta que atravessa cada vez mais explorações agrícolas, do olival às culturas de kiwi: estamos preparados para aquilo que o mercado vai exigir amanhã? Num setor marcado por novas exigências dos distribuidores, consumidores mais informados e uma crescente preocupação com a sustentabilidade, a certificação agrícola deixou de ser apenas uma questão de conformidade. É hoje uma ferramenta de competitividade, diferenciação e acesso a mercados.
Durante muitos anos, certificar significava sobretudo cumprir requisitos, preencher documentação e obter um selo. Atualmente, o processo assume uma dimensão mais estratégica. Uma certificação pode ajudar a demonstrar a segurança e a rastreabilidade dos produtos, reforçar a confiança dos compradores e responder às exigências de grandes cadeias de distribuição e mercados de exportação.
Para os produtores portugueses, esta evolução torna-se particularmente relevante num contexto em que a qualidade do produto já não é o único critério de decisão. A forma como é produzido, as condições de trabalho, a utilização dos recursos naturais e o impacto ambiental são fatores que ganham peso ao longo de toda a cadeia.
GLOBALG.A.P. continua a ser uma referência
Entre os referenciais mais procurados pelos produtores está o GLOBALG.A.P., particularmente através do referencial IFA (Integrated Farm Assurance). A certificação tem uma forte presença entre produtores portugueses e é reconhecida como uma referência importante para quem pretende trabalhar com a grande distribuição e aceder a determinados mercados internacionais.
A sua importância resulta, em grande medida, da capacidade de estabelecer requisitos que permitem demonstrar boas práticas ao nível da produção, segurança alimentar, rastreabilidade e gestão da exploração.
No entanto, as necessidades do setor têm evoluído e, juntamente com o GLOBALG.A.P., têm surgido outras exigências relacionadas com dimensões específicas da atividade agrícola.
Certificação agrícola acompanha novas exigências do mercado
A evolução da certificação agrícola acompanha também as preocupações que hoje estão no centro das decisões dos consumidores e das empresas.
Um exemplo é o GRASP, associado à componente social das explorações e a aspetos relacionados com as condições de trabalho e o bem-estar dos colaboradores. Já o SPRING está direcionado para a gestão sustentável da água, um tema particularmente relevante num contexto de crescente pressão sobre este recurso.
Ao mesmo tempo, têm vindo a ganhar espaço certificações relacionadas com sustentabilidade e produção sem resíduos. Esta tendência mostra que os mercados procuram cada vez mais formas objetivas de comprovar compromissos que anteriormente eram comunicados sobretudo através de declarações das próprias empresas.
O consumidor deixou, assim, de perguntar apenas se um produto é seguro. Quer também saber como foi produzido, em que condições e qual o impacto associado à sua produção.
ZERYA ganha interesse entre os produtores portugueses
É neste contexto que a ZERYA tem despertado um interesse crescente entre os produtores portugueses.
O referencial apresenta duas vertentes distintas. O programa Agricultura Sem Resíduos certifica produtos hortofrutícolas com resíduos de pesticidas abaixo do limite de deteção analítica de 0,01 ppm. Já o programa Agricultura Regenerativa está orientado para práticas relacionadas com a regeneração do solo, o reforço da biodiversidade e a redução do impacto ambiental.
As duas abordagens procuram ir além do simples cumprimento das obrigações legais, permitindo demonstrar através de um processo auditável determinadas práticas relacionadas com a segurança alimentar e a sustentabilidade.
O interesse tem sido particularmente relevante em produções de maior valor acrescentado e com vocação exportadora, num mercado europeu onde conceitos como “sem resíduos” e “agricultura regenerativa” começam a assumir maior importância na decisão de compra.
Outro elemento diferenciador apontado à ZERYA é a organização do sistema através de comités sectoriais de cultura, permitindo adaptar os requisitos técnicos à realidade específica das diferentes produções.
Certificar não termina no dia da auditoria
A implementação de uma certificação não deve ser encarada como um processo que termina com uma auditoria anual. Pelo contrário, implica um acompanhamento contínuo, adaptação a requisitos que podem evoluir e uma integração efetiva das boas práticas no funcionamento diário da exploração.
É precisamente aqui que o acompanhamento técnico pode assumir um papel relevante. A proximidade permite esclarecer dúvidas, interpretar requisitos e ajudar os produtores a transformar normas e procedimentos em práticas que possam ser efetivamente aplicadas no terreno.
Uma certificação só terá verdadeiro valor se os requisitos forem compreendidos por quem trabalha diariamente na exploração. Caso contrário, corre o risco de se transformar apenas num conjunto adicional de procedimentos administrativos.
Quando existe esse envolvimento, a certificação pode passar a funcionar como uma ferramenta de organização, melhoria contínua e redução de riscos.
O exemplo da produção de kiwi
A produção de kiwi é um exemplo interessante desta relação entre certificação, organização e acesso ao mercado.
Portugal ganhou uma posição relevante na produção deste fruto e existem organizações de produtores que passaram de pequenas explorações familiares para operações com capacidade de exportação para diferentes mercados europeus.
Neste percurso, a certificação assume importância na garantia da conformidade dos lotes, na rastreabilidade e na resposta às exigências dos mercados de destino. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam desafios específicos, como a bactéria PSA, novas pragas e uma elevada dependência de mão de obra manual.
Conhecer estas particularidades é essencial para que os referenciais sejam aplicados de forma adequada à realidade da cultura. A implementação de GLOBALG.A.P., GRASP ou, cada vez mais, ZERYA deve ter em consideração as características concretas da produção e as exigências dos mercados para os quais o produto é comercializado.
Quem beneficia com a certificação?
Os benefícios da certificação agrícola não ficam limitados ao produtor.
Para a exploração agrícola, pode significar uma maior organização interna, uma melhor identificação de riscos e uma maior capacidade de responder às exigências dos clientes. Para retalhistas, exportadores e indústria, representa uma garantia adicional de conformidade e rastreabilidade ao longo da cadeia.
Para o consumidor, a certificação contribui sobretudo para reforçar a confiança. Permite demonstrar que determinados critérios de produção, segurança e, cada vez mais, sustentabilidade são verificados através de processos definidos.
É esta capacidade de criar confiança entre diferentes intervenientes que transforma a certificação numa ferramenta com impacto muito para além da própria exploração.
Os custos e a chamada “fadiga de certificações”
Apesar das vantagens, apostar na certificação implica também desafios.
A implementação de novos referenciais exige tempo, recursos técnicos e alterações de procedimentos. Para explorações de menor dimensão, este investimento pode ser particularmente difícil de justificar no curto prazo.
Existe ainda a necessidade de acompanhar referenciais que estão em constante evolução e de comunicar adequadamente o seu valor aos clientes e consumidores. Com a multiplicação de selos, módulos e diferentes sistemas de certificação, torna-se cada vez mais difícil distinguir aquilo que é realmente relevante para cada exploração.
Surge, assim, o risco de uma verdadeira “fadiga de certificações”, com produtores sujeitos a mais documentação, auditorias e requisitos do que no passado.
Neste contexto, escolher os referenciais adequados às características da exploração e aos mercados de destino torna-se essencial. Mais certificações não significam necessariamente mais valor: o importante é garantir que cada uma responde a uma necessidade concreta do negócio.
Certificar é um compromisso contínuo
A certificação não deve ser encarada como um objetivo que termina no momento em que o certificado é obtido. É antes um compromisso que precisa de ser mantido e renovado ao longo do tempo.
À medida que os mercados se tornam mais exigentes, os referenciais tenderão também a acompanhar novas preocupações relacionadas com segurança alimentar, sustentabilidade, condições de trabalho, utilização dos recursos e transparência das cadeias de abastecimento.
Para os produtores portugueses, a questão já não passa apenas por perguntar se devem certificar-se, mas por perceber qual a certificação agrícola que melhor responde às necessidades da sua exploração e dos mercados onde pretendem estar presentes.
Num setor cada vez mais competitivo, transformar requisitos em boas práticas e boas práticas em confiança pode fazer a diferença entre estar preparado para o mercado de amanhã ou ficar limitado às oportunidades de hoje.