Portugal é o país europeu que mais consome peixe, mas também enfrenta um dos maiores níveis de desperdício de pescado. Reduzir perdas é essencial para a sustentabilidade e eficiência económica.
Deste modo, o desperdício continua a ser um dos maiores entraves à sustentabilidade dos sistemas agroalimentares. Só em 2022, a União Europeia gerou 59 milhões de toneladas de desperdício alimentar, o equivalente a 131 kg por habitante.
No setor do pescado, o cenário é particularmente preocupante. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 35% do pescado capturado globalmente nunca chega ao prato do consumidor. Este fenómeno traduz-se em ineficiências económicas, emissões evitáveis de gases com efeito de estufa e perdas de recursos marinhos valiosos.
Ao longo da cadeia de valor existem perdas, mesmo com políticas e investimentos crescentes, as mesmas mantêm-se elevadas. A plataformaEU Fusionsjá apontava, em 2026, que entre 6 e 8% do volume colocado no mercado era desperdiçado a nível retalhista.
Por sua vez, de 2007 a 2014, as compensações europeias para a retirada de peixe do mercado atingiram mais de 51 mil toneladas, o que equivale a 6,4 mil toneladas por ano de pescado não consumido.
A nível global, oWorld Economic Forum(2024) estima que 23,8 milhões de toneladas de pescado comestível foram desperdiçadas em 2021, cerca de 15% da produção mundial.
Já para Portugal existe um alto consumo e, ao mesmo tempo, um alto desperdício. O relatórioEUMOFA 2024indica que o consumo médio de pescado na Europa ronda 23,5 kg por habitante/ano.
Apesar disto, Portugal destaca-se, por ser o país da UE com o maior consumo per capita, atingindo 54,54 kg por habitante em 2022. Assim, este elevado consumo coloca o país entre os que registam também maiores volumes absolutos de desperdício.
Contudo, essa realidade pode tratar-se de uma oportunidade: uma redução marginal nas perdas, seja na captura, no transporte refrigerado ou na fase de retalho, podendo gerar ganhos significativos em sustentabilidade e eficiência económica.
Por outro lado, as perdas começar logo após a captura, devido a um manuseamento inadequado a bordo, ausência de gelo ou atrasos na evisceração, que aceleram a degradação enzimática e microbiana.Continuam também a ocorrer descartes de espécies sem valor comercial ou abaixo do tamanho regulamentar, apesar das restrições impostas pela Política Comum das Pescas.
Relativamente ao transporte e armazenamento, as perdas que podem ocorrer devem-se a falhas na cadeia de frio, resultantes de má calibração de unidades frigoríficas ou rupturas energéticas, que podem elevar a temperatura acima dos 4ºC, reduzindo a vida útil do pescado em 30% a 50%. Também no retalho, excessos de stock e previsões de procura incorretas contribuem para volumes significativos de desperdício.
Na indústria, rendimentos médios de filete em espécies como bacalhau e pescada variam entre 55% e 65%, gerando 35% a 45% de coprodutos (cabeças, espinhas, aparas). Quando estes subprodutos não são valorizados, acabam classificados como resíduos de baixo valor, perdendo-se um importante potencial de aproveitamento.
As não conformidades microbiológicas e físico-químicas levam à destruição de cerca de 1,2% da produção transformada europeia anualmente, devido a recolhas preventivas e retiradas de mercado.
O desperdício de pescado não é apenas uma questão de perdas financeiras. Cada tonelada desperdiçada significa emissões adicionais, pressão sobre os ecossistemas marinhos, perda de biodiversidade e redução da segurança alimentar.
Reduzir este desperdício — seja através da melhoria das práticas pós-captura, do reforço da cadeia de frio ou da valorização de subprodutos — é, portanto, um passo essencial para garantir a sustentabilidade dos sistemas alimentares e a resiliência económica do setor das pescas.
A adoção de tecnologias de conservação inovadoras, a formação contínua dos agentes da cadeia e a valorização integral do pescado capturado são caminhos que podem transformar um problema ambiental num motor de sustentabilidade e competitividade para o setor.
Fonte:Revista Tecnoalimentar, edição de julho / setembro 2025