Agrovoltaico: A transição energética está a colocar uma nova questão sobre o uso do território: como aumentar a produção de energia renovável sem retirar espaço à atividade agrícola? Em Portugal, os projetos agrovoltaicos começam a apresentar uma possível resposta, ao permitir combinar a produção de energia solar com a agricultura ou a pecuária no mesmo terreno.
Mais do que uma simples instalação de painéis fotovoltaicos em terrenos agrícolas, o conceito assenta na utilização simultânea do espaço para diferentes finalidades. Enquanto os painéis produzem eletricidade, o terreno continua a poder ser utilizado para culturas ou pastagens, criando uma articulação entre produção energética e atividade agrícola.
Produzir energia sem abandonar a atividade agrícola
A expansão das energias renováveis tem aumentado a procura por áreas adequadas à instalação de projetos solares. Ao mesmo tempo, a preservação dos solos agrícolas e a necessidade de garantir capacidade produtiva tornam cada vez mais importante encontrar soluções que permitam conciliar diferentes utilizações do território.
É neste contexto que surge o agrovoltaico. O modelo procura aproveitar a mesma área para produzir energia e manter uma utilização agrícola, podendo ser aplicado tanto a culturas como à pecuária. A reportagem da SIC Notícias destaca precisamente esta possibilidade de conciliar a produção energética com a preservação ambiental e a utilização agrícola dos terrenos.
A combinação pode assumir diferentes configurações, dependendo das características do terreno, das culturas e do próprio projeto energético. A instalação dos painéis deve, por isso, ser pensada em função da atividade agrícola existente, de forma a manter a aptidão produtiva da área.
Uma resposta à pressão sobre o território – agrovoltaico
A utilização de terrenos para produção de energia tem gerado um debate cada vez mais relevante sobre a compatibilização entre objetivos energéticos, agrícolas e ambientais. O agrovoltaico introduz uma abordagem diferente, procurando evitar que estas utilizações sejam necessariamente vistas como incompatíveis.
Em vez de escolher entre produção agrícola e produção de energia, o modelo procura criar condições para que ambas possam coexistir.
Esta questão ganha particular importância num contexto em que Portugal pretende aumentar a utilização de fontes de energia renovável, ao mesmo tempo que enfrenta a necessidade de preservar solos com aptidão agrícola e reforçar a resiliência dos sistemas alimentares.
A própria legislação portuguesa passou recentemente a prever expressamente a instalação e exploração de sistemas agrovoltaicos em áreas da Reserva Agrícola Nacional, considerando-os parte integrante da atividade agrícola quando cumpridos determinados requisitos, nomeadamente a manutenção da aptidão agrícola do terreno.
A agricultura continua no centro do projeto
Para que um projeto agrovoltaico cumpra verdadeiramente este objetivo, a componente agrícola não pode ser secundária. A instalação deve ser compatível com a utilização do solo e permitir que a atividade agrícola continue a desenvolver-se.
A legislação estabelece precisamente que, nas áreas da Reserva Agrícola Nacional, deve ser mantida a aptidão agrícola do terreno, podendo ser necessária a remoção parcial ou integral do sistema agrovoltaico para garantir essa condição.
Esta exigência reforça uma ideia essencial: o agrovoltaico não deve ser entendido apenas como uma forma de instalar painéis solares em terrenos agrícolas, mas como um modelo que procura articular duas atividades num mesmo espaço.
Energia, agricultura e sustentabilidade no mesmo território
A experiência que começa a ganhar expressão em Portugal mostra que a discussão sobre a transição energética pode ser também uma oportunidade para repensar a utilização do território.
Quando bem planeado, o agrovoltaico pode permitir que uma mesma área contribua para a produção de alimentos e de energia renovável, evitando uma separação rígida entre as duas utilizações. É uma abordagem que coloca a compatibilização entre produção, sustentabilidade e gestão do território no centro da decisão.
O desenvolvimento destes projetos exigirá, naturalmente, uma avaliação cuidada das características de cada exploração, das culturas existentes, das condições do terreno e dos requisitos aplicáveis. Mas a possibilidade de produzir energia mantendo a utilização agrícola abre uma nova frente de discussão sobre o futuro do território rural português.
Num momento em que a agricultura procura adaptar-se às alterações climáticas e a produção energética procura acelerar a transição para fontes renováveis, o agrovoltaico apresenta-se como uma solução que procura responder aos dois desafios em simultâneo.
Fonte: SIC Notícias