A maioria das grandes empresas mundiais já assume compromissos com a sustentabilidade e uma conduta empresarial responsável, de forma pública. No entanto, a implementação efetiva da due diligence continua aquém do esperado, sobretudo nas cadeias de abastecimento, segundo a primeira edição do OECD Responsible Business Outlook 2026, divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
O estudo analisou as 10 mil maiores empresas cotadas do mundo, que representam cerca de 96% da capitalização de mercado global. Os resultados mostram que 69% das organizações divulgam pelo menos um compromisso relacionado com conduta empresarial responsável, incluindo direitos humanos, trabalho infantil e forçado, liberdade sindical, emissões, biodiversidade e corrupção. Contudo, apenas 36% apresentam compromissos abrangentes que integrem todas estas áreas.
Em termos de compromissos com a sustentabilidade, a aplicação da due diligence nas cadeias de abastecimento é identificada pela OCDE como uma das áreas onde o progresso é mais lento.
Destacam-se os seguintes dados apresentados no relatório:
- 50% das empresas utilizam critérios ambientais ou sociais na seleção de fornecedores;
- 25% desenvolvem iniciativas conjuntas com fornecedores para responder a questões ambientais e sociais;
- Menos de 20% avaliam os riscos ambientais e sociais dos fornecedores;
- Apenas 7% integram a política social da cadeia nas decisões de compra;
- Apenas 3% divulgam melhorias na saúde e segurança dos trabalhadores ao longo da cadeia de abastecimento.
O relatório revela igualmente fragilidades na proteção dos direitos humanos. Apenas 8% das empresas referem envolver regularmente as partes interessadas, enquanto 17% dispõem de um mecanismo formal de reclamações. Apenas 10% assumem o compromisso de reparar os danos causados pelas suas atividades. Além disso 7% identificam publicamente os principais riscos relacionados com direitos humanos associados à atividade, e 6% divulgam resultados da monitorização realizada aos fornecedores.
Embora os compromissos com a sustentabilidade relacionados com o combate à corrupção e à redução das emissões sejam hoje relativamente comuns, a biodiversidade continua a receber uma menor atenção. Segundo a OCDE, apenas um quarto das empresas estabelece objetivos públicos nesta área. O estudo identifica ainda diferenças significativas entre os impactos ambientais reconhecidos pelas empresas e os riscos financeiros considerados materiais, especialmente nos temas da água, economia circular e trabalhadores da cadeia de valor.
A Europa continua acima da média global na divulgação de informação e na adoção de práticas de due diligence.
Ainda assim, a OCDE alerta que os indicadores utilizados medem sobretudo a informação publicada pelas empresas, não permitindo avaliar integralmente a qualidade das práticas implementadas.
O relatório defende que regular a conduta empresarial, por si só, não chega para evitar impactos negativos, sendo necessários incentivos orientados para resultados concretos, maior apoio às empresas na análise das cadeias de abastecimento, indicadores comparáveis e uma cooperação internacional mais eficaz.
A OCDE destaca igualmente a evolução da regulamentação nesta matéria. Atualmente, 84% dos países membros da OCDE já introduziram legislação sobre due diligence relacionada com impactos sociais e ambientais, 67% dos países aderentes às Diretrizes para Empresas Multinacionais também possuem requisitos semelhantes, assim como países não aderentes. Segundo a OCDE, os países com requisitos de due diligence em vigor representam cerca de 55% do PIB mundial.
Segundo Mathias Cormann, Secretário-Geral da OCDE, as Diretrizes da OCDE, atualizadas em 2023, continuam a constituir a principal referência internacional para apoiar governos e empresas na promoção de um crescimento sustentável através de compromissos com a sustentabilidade, alinhados com os desafios da transição económica e climática.
Para a OCDE, o próximo passo passa por substituir o foco em políticas e processos por resultados mensuráveis, reforçando a transparência, a monitorização e a cooperação internacional para reduzir os impactos sociais e ambientais das atividades empresariais.
Fontes: Jornal de Negócios, OECD