O desperdício alimentar não resulta apenas de problemas relacionados com a produção, distribuição ou consumo dos alimentos. As próprias embalagens podem ter um papel relevante ao longo da cadeia alimentar, seja por serem demasiado grandes, difíceis de esvaziar ou abrir, seja por não protegerem adequadamente os produtos durante o transporte.
É essa uma das conclusões de uma análise realizada por investigadores do Sustainable Packaging Institute da Universidade de Albstadt-Sigmaringen, na Alemanha, que avaliou 54 estudos científicos internacionais publicados sobre a relação entre embalagens e desperdício alimentar.
A análise, publicada em 2025 no Journal of Consumer Protection and Food Safety, procurou identificar os principais problemas associados às embalagens e perceber de que forma alterações no seu desenho e utilização podem contribuir para evitar perdas.
O impacto das embalagens varia consoante o alimento
Os estudos analisados mostram que a relação entre embalagem e desperdício alimentar não é igual para todas as categorias de produtos. Num dos trabalhos considerados, a proporção de desperdício associada às embalagens variou significativamente entre diferentes tipos de alimentos.
Nos produtos lácteos, a embalagem esteve associada a 89% do desperdício analisado, enquanto nos restantes alimentos e produtos básicos a proporção chegou aos 80%, com o pão a representar 68%. Na carne e no peixe, o valor foi de 73%, enquanto nas frutas e hortícolas ficou pelos 36%, uma diferença que os investigadores relacionam, em parte, com o facto de estes produtos serem frequentemente comercializados sem embalagem.
Nos produtos lácteos, entre os problemas identificados estão a dificuldade em retirar todo o conteúdo da embalagem, formatos desadequados às necessidades do consumidor, o prazo de validade e as dúvidas relativamente à segurança do alimento.
A abertura das embalagens também parece ter importância no momento do consumo. Os produtos lácteos são os que mais frequentemente são descartados depois de as embalagens serem abertas, seguindo-se o pão.
Embalagens maiores podem aumentar as perdas
A dimensão das embalagens surge igualmente como um fator relevante, sobretudo quando não está adequada às necessidades de quem compra ou consome o produto.
Quando uma embalagem contém uma quantidade superior à que será consumida num determinado período, parte do alimento pode permanecer no interior depois de aberta. A partir desse momento, perde-se parte da função de proteção proporcionada pela embalagem, aumentando o risco de deterioração e, consequentemente, de desperdício alimentar.
Um dos estudos analisados, realizado na Suécia, associou 49% do desperdício alimentar doméstico às embalagens, destacando precisamente a utilização de formatos demasiado grandes.
A questão coloca-se, por isso, não apenas ao nível do material utilizado, mas também da dimensão e do formato escolhido para cada produto e perfil de consumidor.
Transporte também pode gerar perdas
O problema começa, contudo, muito antes de o alimento chegar às casas dos consumidores. Durante o transporte, as características das embalagens podem influenciar a proteção dos produtos e contribuir para perdas quando não permitem um acondicionamento adequado.
A análise apresenta, como exemplo, um estudo realizado na Nigéria sobre o transporte de tomate. A utilização de cestos demasiado grandes, com ventilação insuficiente, difíceis de empilhar e, em alguns casos, contaminados, esteve associada a perdas médias entre 41% e 48% do produto.
A substituição destes recipientes por caixas de plástico mais pequenas, ventiladas e com melhores condições de empilhamento permitiu reduzir as perdas totais de tomate para 7,7%.
O exemplo demonstra que pequenas alterações no sistema de acondicionamento podem ter consequências significativas na quantidade de alimento que chega efetivamente ao consumidor.
Melhorar as embalagens para reduzir o desperdício alimentar
Perante os resultados analisados, os investigadores identificam várias áreas onde existe margem para reduzir o desperdício alimentar associado às embalagens. Entre elas estão o desenho dos recipientes, a adaptação das dimensões às características dos produtos e às necessidades dos consumidores, a seleção dos materiais e a melhoria da maquinaria utilizada no enchimento e processamento.
Também a rotulagem pode desempenhar um papel importante. Informação em falta ou códigos de barras ilegíveis podem criar problemas ao longo da cadeia, enquanto aspetos como a facilidade de abertura e de esvaziamento podem influenciar diretamente o desperdício na fase de consumo.
O controlo da temperatura e a ventilação são igualmente apontados como fatores a considerar, sobretudo em produtos mais sensíveis.
A solução, contudo, não passa por criar uma embalagem universalmente mais eficiente. Segundo a análise, o desenho deve ser pensado de acordo com o alimento, o tipo de embalagem e a região geográfica, uma vez que as necessidades e os desafios podem variar significativamente.
A embalagem deixa, assim, de poder ser analisada apenas como um elemento de proteção ou apresentação do produto. Ao longo da cadeia alimentar, o seu desenho, dimensão e funcionalidade podem influenciar a quantidade de alimento que efetivamente chega ao consumidor e aquela que acaba por ser desperdiçada.
Fonte: Tecnoalimentar